Hoje eu já sou mais velho do que o meu próprio pai. Não
importa quanto tempo passa, com a sua lembrança a gente sempre cai. O tempo
passa, mas a gente aprende com a dor. Meu ancestral divinizado que ainda chamo
de senhor. Você morreu pra gente viver, você se foi pra gente crescer. Mas essa
troca não foi boa, desde bem pequeno é choro o que ecoa.
Tem horas que parece que eu sou apenas uma criança, um
menino chorando por aquele colo que nunca teve. Soluçando sem parar, derramando rios de lágrimas. É tão ruim, tão horrível, mas
ao mesmo tempo é tão bom por ser tão ingênuo e bonito. É a hora que me leva de
volta para mim mesmo, para a minha essência, para aquilo que ainda me faz
sonhar. Sonhar sonhos grandes, dignos de grandes espetáculos.
Já foi o pai, o pai do pai, agora a mãe da mãe e, de
repente, parece que o tempo vai simplesmente escorrendo pelos dedos, parece que
não vai dar tempo para mais nada, parece que os sonhos nunca vão ser
alcançados, mesmo que aquela criança retorne com o seu choro tão sincero. Já
foram tantos choros, já foram tantas mortes em vida, mas o melhor de tudo é a
catarse, a energia vinda de dentro se renovando, a vontade de só seguir em
frente. Com choros, com sonhos, com o tempo que vai se esvaindo, se esvaindo,
se esvaindo.
É incrível como eu só consigo escrever bem na hora da
tristeza, se eu tivesse me aproveitado do meu choro, eu já teria entrado para a
história. Mas ele serve só para me confortar sozinho mesmo, sem ninguém por
perto, sem nem um colo para acalentar, sem nenhum olho para testemunhar. E se
as minhas lágrimas tivessem se transformado em letras, será que meus sonhos já
teriam se tornado realidade?...