“O verdadeiro algoz do Oitizeiro foi o progresso, em nome do
qual se cometem tantos crimes. O velho Oitizeiro já não era mais que um
intruso, um trambolho que impedia o embelezamento da cidade que crescia. Começavam
a aparecer os automóveis que deveriam transitar por todas as artérias da
cidade. A queda do Oitizeiro do Rosário marcou o desmoronamento de mais uma
tradição, para dar lugar às correrias desenfreadas dos novos habitantes da
pacata urbe – os bêbados da gasolina!”
(Fortaleza Descalça, p. 118 – Otacílio de
Azevedo)
No começo do século passado o autor cearense Otacílio de
Azevedo já se maldizia deste tal progresso que chegou à Fortaleza vindo de
carro, esses “bêbados da gasolina!”, que já foram derrubando nossas árvores,
nossos prédios antigos, nossas memórias de seres fortalezenses.
Esse tal de progresso chegou e quando ele chega parece que
muda tudo. É um tal de desenvolvimento que não envolve ninguém, faz é afastar
as pessoas. São construídas “serras de tijolo”, rios de concreto que correm
para cima, grandes árvores artificiais que arranham o céu. Vai ficando cada
qual no seu quadrado, linear, liso, concrético.
Uma Fortaleza que não se importa em conservar seu patrimônio
histórico, pelo contrário, o destrói. Uma Fortaleza que não preserva seus
muros, pelo contrário, os derruba. Uma Fortaleza que não recorda suas memórias,
pelo contrário, as apaga.
O capitalismo comeu minha cidade. Os seus antigos prédios
históricos foram devorados para dar lugar à principal máquina capitalista, o
automóvel. A Fortaleza antiga já não é mais vista, seus sobrados, palacetes e
casarões foram deglutidos e excretados em estacionamentos.
O Centro virou periferia, a periferia virou Centro. A cidade
é constantemente destruída, para depois ser refeita, revitalizada, mas com uma
natureza morta. O novo sempre vem, com uma nova feição, muitas vezes não melhor
que a anterior.
Luzes de lojas se espalham por todos os lados, letreiros de
marcas consomem até o meu olhar. A luz só não entra no fundo do bolso, a
esperança lá é só esperar o próximo mês chegar. Dinheiro, dinheiro, dinheiro,
voa, voa, voa.
Onde estão as cadeiras nas calçadas? Onde estão as conversas
de fim de tarde? Onde estão os amigos conversando debaixo do oitizeiro, do
cajueiro, da mangueira? Todos os vizinhos estão trancafiados atrás dos seus
muros, das suas grades, das suas cercas elétricas, em suas propriedades
privadas, enquanto o crime organizado está solto por aí, invadindo até mesmo o
poder público.
Cadê as sombras das árvores? Cadê os banhos de mar? Cadê os
passeios à lagoa? As árvores são derrubadas para dar espaço a novos
empreendimentos que jogam no mar o esgoto puro a céu aberto. O mar é a lama
onde a gente se diverte dentro do canal que escoa o lixo do luxo da aldeia. A
lagoa poluída serve só como anedota de um possível jacaré.
Ah, Fortaleza bela, “irmã do sol e do mar”, como vou te
defender, se o povo insiste em te matar? Ah, Fortaleza bela, “terra do sol e da
luz”, como vai me proteger, se já derrubaram a tua cruz? Uma fraca Fortaleza que trai o seu próprio nome, uma
Fortaleza fraca que insiste em buscar o progresso criando mais estacionamentos
para os seus carros.
Reage Fortaleza, mesmo que para isso precise buscar forças
nas lembranças de quem não mais aqui está. Ou então, silencia Fortaleza, para pelo menos homenagear aqueles que já foram levados pelo infortúnio do seu progresso...
“Havia silêncio que ajudava o recolhimento e o repouso do
cérebro – silêncio este interrompido apenas pelos rios das crianças ou o pregão
de um vendedor de guloseimas. Nem um apito, nem uma buzina antipática de
automóvel vinha perturbar a nossa tranquilidade...” (Fortaleza Descalça, p. 41 –
Otacílio de Azevedo)
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